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A vocação do saber envelhecer

Há algum tempo li numa rede social um artigo sobre o paralelo entre padres midiáticos e padres que vivem o restante de suas vidas em casas de repouso, ou em alguma comunidade religiosa, desbravadores da fé sem muitos recursos, como rádio, TV, mídias sociais, microfones etc., que abriram caminhos em meio ao nada e contavam somente com a providência divina e a solidariedade de uma comunidade, que os animava na vocação sacerdotal, pessoas guiadas pelo senso de discernimento, cheias de fé e do Espírito Santo. Ao ler o artigo, recordei-me de uma pessoa muito querida atualmente, não obstante as críticas de certos setores que a desaprovam pela postura. Refiro-me ao Papa Francisco e a sua atuação pastoral, que busca uma renovação dentro da Igreja. A sua eleição e atuação (para além das análises humanas) é testemunha do próprio Deus ao seu povo!

A figura do Santo Pontífice reflete que a vocação não tem idade para acontecer, neste caso, uma vocação a serviço de toda a Igreja. Essa é uma vocação cheia de testemunho, entusiasmo e alegria numa idade em que essas coisas se acomodam. A figura do Papa reivindica a muitos a “jovialidade da vida madura” – em outras palavras, o saber envelhecer.

Cada história vocacional tem um toque único, emanado das mãos do Criador, para o bem de todos. Eu, como padre novo em um mundo midiático, sempre reflito sobre essas e outras questões, uma vez que o mundo sempre pede uma maior atuação, atualização, próxima ao esgotamento físico, não muito diferente das preocupações que eram contemporâneas dos padres desbravadores que hoje se encontram no serviço da oração pela Igreja no seu silêncio, que testemunha uma vida bem gasta pelo Reino. Longe de querer ser exemplo de vida e vocação, quero dizer que fui profundamente agraciado em minha história vocacional e sei que muitos dos que lerão este artigo se recordarão de alguma situação similar. Já antecipo ao leitor que são esses acontecimentos que precisamos guardar em nosso coração e por toda a vida, sobretudo quando as motivações vocacionais já não são suficientes e necessitamos intensificar outras.

A primeira situação impactante na minha trajetória vocacional foi a morte do Padre Alberto Smanhotto. Recém-chegado ao seminário, deparei-me com ele já em seu leito de mortem sofrendo com muitas dores (devidas a uma metástase), já que nem morfina o auxiliava mais no tratamento. Padre Alberto havia sido um grande compositor da congregação claretiana e devoto fervoroso do Imaculado Coração de Maria. Uma das atividades que realizava em nossa formação seminarística era permanecer em vigília durante a noite em seu quarto, cuidando para que ele não caísse da cama ou para levá-lo ao banheiro quando necessitasse. O mais impressionante foi que a sua morte ocorreu em uma Quarta-feira de Cinzas. Essa primeira experiência em comunidade religiosa e o exemplo do Padre Alberto me ensinaram o cuidado que devemos ter com o próximo. Sublinho que esse acontecimento entre os muitos que vivi e ainda vivo como pertencente à referida congregação, uma vez que esse convívio entre gerações é uma peculiaridade muito própria da vida religiosa, que se sintetiza em saber viver com os outros, percebendo as particularidades e riquezas da vida das experiências e, ao mesmo tempo, mantendo os pés na realidade que nos toca a viver, pensar no futuro que teremos se conseguirmos a graça de uma vida longa.

Depois de ordenado tive o privilégio de conviver com padres idosos e esses meus primeiros anos foram uma bênção, sobretudo para pensar na finitude da vida. Como padre novo, aprendi a administrar a ansiedade de querer mudar o mundo com ações. Essa motivação é necessária, uma vez que se torna o motor e construção de projetos, ímpeto para atividades. Contudo, a sabedoria dos “vovôs do sacerdócio” me inspiraram a saber esperar, a colocar-me à ação de Deus. A preocupação constante com a vida do Instituto fica evidente neles na partilha de uma conversa, ou nos momentos de oração, pois se trata de um enriquecimento mútuo em que, ao final, sobra uma sensação de que as coisas andam no ritmo de Deus e que nem sempre tudo está perdido.

Diante de tudo isso, penso que a vida religiosa tem, dentro de suas casas e comunidades, um grande testemunho contra a cultura do descarte, que joga fora aquilo que não serve mais. Por outro lado, é preciso considerar que nossos idosos já não possuem a força corporal da juventude, embora a mística e a espiritualidade vão se intensificando para encaminhá-los àquele último e definitivo “sim” a Deus. Existe um texto bíblico que mostra essa dinamicidade da vida e ao mesmo tempo permite uma reflexão sobre deixar-se ser conduzido por Deus, na coparticipação do Reino. Quero deixar aqui algumas palavras para que você, leitor, desperte sobre a importância das vocações no tempo do envelhecimento e serenidade: 

“Jovem, lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais venhas a dizer: não tenho neles contentamento; Antes que se escureçam o sol, e a luz, e a lua, e as estrelas, e tornem a vir as nuvens depois da chuva; No dia em que tremerem os batentes da casa, e se encurvarem os homens fortes, e cessarem os moedores, por já serem poucos, e se escurecerem os que olham pelas janelas, e as portas da rua se fecharem por causa do baixo ruído da moedura, e se levantar à voz das aves, e todas as filhas da música se abaterem. Como também quando temerem o que é alto, e houver espantos no caminho, e florescer a amendoeira, e o gafanhoto for um peso, e o perceber o apetite, porque o homem se vai à sua casa eterna, e os pranteadores andarão rodeando pela praça;Antes que se rompa o cordão de prata, e se quebre o copo de ouro, e se despedace o cântaro junto à fonte, e se quebre a roda junto ao poço, E o pó volte à terra, como era, e o espírito volte a Deus, que o deu”. (Ec 12, 1-7)

Texto de Pe. Jorge Pinheiro, cmf, retirado da Revista Ave Maria, Ano 119 | Agosto 2017.

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