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Professora de Nutrição do Claretiano publica artigo na Nature

18/08/2020 - Rio Claro

Quem se interessa pela vida acadêmica sabe a importância de publicar em revistas científicas renomadas.

Desde a graduação em Nutrição, realizada na Universidade Federal de Alfenas, Olívia Pizetta Zordão já se dedicava à pesquisa. Depois da graduação, realizou mestrado em Alimentos e Nutrição pela Unesp de Araraquara, pós-graduação em Nutrição Clínica Funcional e Nutrição Comportamental e, atualmente, é aluna de doutorado em Clínica Médica na Unicamp.

Hoje é pesquisadora e professora universitária no curso de Nutrição e coordenadora do curso de pós-graduação em Nutrição Clínica Hospitalar do Claretiano - Centro Universitário de Rio Claro.

Olívia já publicou artigos em outras revistas, como a Nutrients, Dietética Hospitalaria, Probiota Americans, entre outras, além de participação em congressos nacionais e internacionais. Mas, de acordo com a professor, essa foi a publicação mais esperada. Confira a entrevista completa sobre o artigo:

Poderia contar um pouco sobre a pesquisa?

A pesquisa envolve o estudo dos efeitos da poluição atmosférica no metabolismo energético, assim como riscos de obesidade e diabetes mellitus tipo 2 (DM2). Nosso estudo é com animais de laboratório (camundongos) e em parceria com a faculdade de medicina da USP de São Paulo, esses animais são expostos à poluição de verdade, utilizamos um equipamento que pega o ar da rua de São Paulo e joga em câmaras onde os animais ficam, esse equipamento é único no Brasil e veio de uma tecnologia desenvolvida na universidade de Harvard, existem pouquíssimos como ele no mundo. Durante e depois do período de exposição fazemos os experimentos para descobrir quais foram as modificações metabólicas, endócrinas e neuronais que aconteceram nesses animais.

Esse é o primeiro artigo dentro dessa linha de pesquisa sobre poluição do nosso grupo. Conseguimos observar uma inflamação no hipotálamo dos animais, é o hipotálamo o principal responsável pela regulação de gasto de energia (calorias) e consumo alimentar no nosso corpo, ou seja já encontramos indícios de que a poluição atmosférica pode influenciar no nosso metabolismo, por um mecanismo de inflamação (local e possivelmente sistêmica).

A pesquisa foi realizada em parceria com outras pessoas?

Esse foi um trabalho em grupo que fizemos, entre todos os pesquisadores dessa linha dentro do nosso grupo de pesquisa, foi um envolvimento conjunto de professores/pesquisadores e alunos de doutorado, pós doutorado, mestrado e iniciação científica do LABIMO (Laboratório de Investigação Molecular em Obesidade) da Faculdade de Ciências Aplicadas da UNICAMP em Limeira, do LICRI (Laboratório de Investigação Clínica de Resistência à Insulina) da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP de Campinas, do LPAE (Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental) da FM/USP de São Paulo, onde minha co-orientadora é responsável, e de um professor colaborador do nosso grupo que é pesquisador e professor na Universidade de Harvard em Boston.

A pesquisa tem relação com o seu Doutorado?

Sim, é um estudo realizado na UNICAMP com parceria com a USP, tem grande relação com meu doutorado. Esse já publicado é um estudo inicial que fizemos, no meu doutorado trabalho com essa influência da poluição quando mães grávidas são expostas e depois dos filhos nascerem o meu estudo segue neles, investigo quais as possíveis influências para a prole da mãe que foi exposta à essa poluição. Estamos ainda em período de análise, mas também já consegui observar alterações metabólicas nestes filhotes, mesmo na sua vida adulta. Ou seja, algo indica que esse ambiente poluído que a mãe foi exposta ao longo da gestação pode modificar também o metabolismo dos filhotes não só no início da vida, mas até a vida adulta.

Você já possui outras publicações em revistas internacionais, a Nature é a maior até o momento?

Tenho outras publicações em revistas nacionais e até internacionais mas com certeza essa da Nature foi a mais esperada e mais comemorada até hoje. Em geral uma publicação dessa viria quando eu estivesse já em um pós doutorado ou até depois disso ou até mesmo não viria. Agora como já conseguimos esse reconhecimento a esperança do meu artigo do doutorado se manter em um nível alto de revistas fica mais forte.

Como é o processo para publicar numa revista assim?

O crivo em revistas de alto impacto como as do grupo Nature é bem rígido, toda a escrita deve estar impecável, para isso contratamos um serviço especializado de correção do inglês, mesmo tendo quase todos os pesquisadores do grupo com inglês avançado e alguns até fluentes, isso é necessário quando se submete um artigo para uma revista desse porte. Enfim, as etapas desde o início da ideia são: escrita do projeto, submissão desse para uma agência de fomento (sem verba fica difícil) e no nosso caso a pesquisa foi fomentada pela FAPESP, realização dos experimentos (tanto em Campinas quanto em São Paulo - foram muitas viagens, muitos dias de exposição e experimentos), análise dos resultados - uma estatística bem feita é essencial, escrita do artigo (isso envolve a escolha da revista e a formatação do artigo nos moldes da revista escolhida, tem número de palavras, de figuras, tabelas, linhas, etc), submissão do artigo (é quando a gente envia o artigo para revista além da documentação de todos os autores) e finalmente a tão sonhada aprovação.

Todo esse processo levou em torno de 6 anos e vale ressaltar que já havíamos enviado para outras revistas e o artigo foi negado, foram duas negativas até conseguirmos, mas em nenhum momento a gente desistiu, geralmente quando uma revista nega ela explica porque negou e sugere alterações, fomos fazendo as alterações e até aumentando experimentos (sim, mesmo depois de "pronto" ainda voltamos pras fases iniciais e refizemos experimentos solicitados por revisores) e re-submetendo. Ainda depois da aprovação algumas revistas cobram pela publicação, no nosso caso tivemos ainda que pagar (não é barato, não me lembro ao certo mas foi em torno de 6 mil reais, pagos em dólares hehehe), o que também foi fomentado pela FAPESP (primeiro o pesquisador paga, dai manda a nota pra fapesp e ela reembolsa, se o projeto tem a verba pré aprovada - aquela que falei no início).

Qual é a sensação desse reconhecimento, não apenas nessa ocasião?

Eu nem sei explicar essa sensação, em geral o reconhecimento seria muito maior se eu fosse a primeira autora do trabalho, por exemplo, no meu artigo fruto da pesquisa do meu doutorado aí sim eu serei a primeira autora. Mas de toda forma todos nós esperávamos tanto por esse momento que festejamos como se todos fossemos primeiros autores hehehe. De toda forma o reconhecimento como pesquisador em um país com a pesquisa tão massacrada e sem incentivo algum, vem como uma sensação de superação e um sentimento de que existe um fio de esperança.

Confira a matéria publicada na Nature aqui.

Parabéns, professora. Continue desenvolvendo ciência e marcando seu nome como mulher brasileira cientista mundo afora.

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